ATA DE FUNDAÇÃO DO CINECLUBE 13 DE JUNHO
Aos vinte nove dias do mês de janeiro de dois mil e onze as dezenove e trinta horas, no Cine Teatro Imperial da Lapa, sito na Praça Mirazinha Braga s/nº, na cidade da Lapa, realizou-se a assembléia de fundação do Cineclube 13 de Junho, nome este dado em homenagem à data da fundação da cidade da Lapa, então como Freguesia, em 1769. Escolhido para dirigir os trabalhos, o presidente da comissão organizadora, Kallil Assad, saudou todos os presentes e relacionou as mensagens de congratulação pela fundação da entidade cineclubista, sublinhando as enviadas por dirigentes públicos, tais como Rodrigo Bouillet, da Ação Cine+Cultura, ligada ao Ministério da Cultura, e Paulino Viapiana, recém empossado no Paraná como Secretário de Estado da Cultura. Em seguida, registrou o chamamento feito pela imprensa escrita e falada aos interessados em participar desta assembléia, e que somente após reuniões e conversas constituiu-se a diretoria que foi apresentada e aprovada pela unanimidade dos presentes: Presidente: Kallil Assad, Secretária: Mara Weinhardt, Diretora de documentação e produção:Nádia Burda, Diretor de programação e divulgação: Márcio Assad. Membros do Conselho Fiscal: João Alfredo Furiatti Carneiro, Marcos Vinicius Uhlik, Valéria Borges da Silveira, Anderson Sossela. Em ato contínuo foram empossados, com todos assumindo a responsabilidade de dirigir a entidade por um biênio. Ressaltou ainda que tais nomes são conhecidos da sociedade lapeana, atuando no âmbito educacional, cultural, de comunicação e do audiovisual. Em seguida o presidente empossado apresentou aos presentes o professor Emmanuel Appel, do Departamento de Filosofia da UFPR, -- “velho amigo do cinema e muito atuante na presente reorganização do movimento cineclubista paranaense”--, indicado pela Comissão Organizadora para ser o patrono do cineclube, indicação esta aplaudida pelos presentes. Dizendo-se privilegiado pelo título conferido, não só o agradeceu como se colocou como um parceiro no esforço de implantação do cineclube. Antes de iniciar sua palestra pelos “caminhos do cineclubismo: cinema, cultura e formação do público”. leu a dedicatória que Herondes César de Siqueira escreveu no livro - que modestamente chama de libretinho -, de sua autoria, intitulado Era Uma Vez O Cinema (na qual Herondes narra, num período que vai da década de 20 a de 80, o surgimento, o impacto e o ocaso do cinema na cidade de Piracanjuba/Goiás), dirigindo-se aos cineclubistas lapeanos. O presidente do cineclube, Kallil Assad, agradeceu tanto pelo livro como pelas “notas lapeanas” que Herondes Cezar vem divulgando desde Brasília, onde reside, em seu eraumavezocinema.blogspot.com,-- notas iniciadas em meados do ano passado com a divulgação e apresentação da Carta da Lapa, aprovada na quarta edição do Festival da Lapa - Cinema Num Cenário Histórico. Carta que Herondes apresenta como um alerta, “um grito-manifesto aos que gostam de cinema e sabem da importância do cineclubismo".Agradeceu também pela relação de filmes com trem, também publicada no blogue, preparada para facilitar uma mostra sobre o “Trem no Cinema” e para servir de estímulo à criação de cineclubes, um no Centro dos Ferroviários do Paraná e outro na Lapa. Devolvida a palavra ao Prof. Appel, os presentes acompanharam sua incursão por alguns momentos decisivos do cineclubismo brasileiro e curitibano (neste, detendo-se no Cineclube Pró-Arte do Colégio Santa Maria, do qual foi presidente por um período em meados dos anos 1960). Para mostrar a influência do cineclube na constituição do melhor cinema nacional, o palestrante lembrou a polêmica Vinícius de Moraes versus Carmen Santos, na qual o poeta,-- que fazia crítica de cinema no jornal carioca A Manhã nos primeiros anos da década de 1940 --, diz para a atriz e empresária-produtora Carmen Santos, de origem portuguesa, e que havia interrompido um debate que ocorria num "clube de cinema" sobre o expressionismo alemão afirmando que “o problema fundamental do cinema brasileiro era o dinheiro --, que "não se faz cinema só com dinheiro nem somente com dois ou três valores de direção mas sobretudo com um público consciente, amigo da arte”, arrematando Vinicius que “ isso se atinge por meio do interesse cinematográfico que vive à base do presente debate". Após mostrar a centralidade da cultura cinematográfica na sobrevivência e na continuidade da arte do cinema, do cinema como processo civilizatório, concluindo que “não há cinema sem cultura cinematográfica, não há cinema quando se fazem filmes e não se fala dos filmes, não há cinema quando autor e obra não encontram o seu público”, o Prof. Appel direcionou sua exposição para dois importantes documentos: a Carta de Curitiba, tirada em fevereiro de 1974 quando da realização no Teatro do Paiol da VIII Jornada Nacional de Cineclubes Brasileiros; e a Carta da Lapa, acima citada. Na de Curitiba há um claro posicionamento em favor do cinema nacional e do projeto cultural brasileiro. Na da Lapa, sublinha-se - junto com oportunas considerações sobre formação técnico-profissional, sobre pesquisa e preservação cinematográfica, sobre filmes de época --, a relação entre cinema e educação e a necessidade de aproximar os cineclubes existentes, inclusive com propostas de políticas públicas, bem como de organizar novos cineclubes em todos os espaços possíveis: escolas, universidades, associações, institutos, bibliotecas, museus, sindicatos, clubes, dentre outros, visando contribuir de forma duradoura com a formação do público, de público para o cinema nacional, de quadros que possam fazer crítica de cinema, um exercício que não se pode considerar menos importante que fazer cinema. Em seguida, sugeriu que o Cineclube 13 de Junho oportunamente retomasse sua leitura e até assumisse a Carta da Lapa como seu documento-bandeira. Sugeriu ainda, considerando a reafirmação do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, recentemente renovado, de priorizar o seminário "Cinema, Cineclubismo e Educação", que batalhasse pela presença da arte cinematográfica nas escolas da Lapa, fazendo sua a aposta na vocação original do cinema de ser arte democrática e popular.Neste momento da exposição, a professora e maestrina Sofia Mariano Müller, pediu a palavra e observou que com a reabertura do Cine Teatro Imperial o cinema pôde voltar a Lapa mas que o mesmo se encontra praticamente fechado, sem programação regular desde um ano atrás. Outras intervenções se seguiram para anotar que, com a passagem do tempo, apareceram mais problemas em sua edificação, tais como infiltrações, dificuldades de reposição das lâmpadas de projeção, tapetes úmidos/mofados, dentre outros, podendo inclusive, se providências não forem tomadas, comprometer sua estrutura; todas, enfim, mostrando preocupação com a causa do cinema, sugerindo que os cineclubistas se manifestem juntos aos órgãos competentes para que o Cine Teatro tenha os merecidos reparos e volte a exibir diariamente bons filmes. Em seguida, Márcio Assad, diretor de programação e divulgação, solidarizando-se com a professora Sofia, endossando suas palavras e a dos demais, afirmou que a percepção da referida professora é um consenso da comunidade lapeana, ao mesmo tempo orgulhosa de seu Cine Teatro e preocupada com sua inoperância, “correndo-se o risco inclusive de que muitos deixem de perceber o significado do cinema em suas vidas”. Sua proposta de que esta Assembléia sirva de manifesto, como cabeçalho em favor da recuperação e reativação do Cine Teatro Imperial, pela volta do cinema na Lapa, f oi aplaudida por todos. Kallil Assad sugeriu que se solicitasse da Prefeitura uma avaliação mais apurada das instalações para que possa ser levada, junto com a boa nova do Cineclube 13 de Junho, ao novo diretor do MIS/Museu da Imagem e do Som, o conceituado cineasta Fernando Severo, solicitando as devidas providências quanto a reabertura do Cine Teatro, logo após os cem dias que se costuma oferecer aos novos governantes. O Prof. Appel então sugeriu aos dirigentes do 13 de Junho que deixem claro sua intenção de colaborar com a programação e que avaliem se não seria o caso de solicitar um espaço em sua grade para os filmes que promoverá (dentre eles, inclusive os premiados nas edições do Festival da Lapa, precedidos de curtas das mostras CINETVPR) com apresentação e debate após a sua exibição, contribuindo com a formação do público. A referência ao MIS permitiu ao Prof. Appel voltar ao início de sua exposição, detendo-se um pouco mais na crítica de cinema que se fez em Curitiba nos anos 1960 quando “os cinéfilos muito aprenderam com Francisco Bettega Netto, lendo suas densas e disputadas críticas no jornal Última Hora, versão regional, entre 1962/64: não posso afirmar, acrescentou , “que deve sua formação ao cineclubismo, certamente era um bom leitor dos grandes críticos brasileiros do período -- como Paulo Emílio Salles Gomes, Antonio Moniz Vianna, dentre outros --, mas anoto que Bettega não só freqüentara como havia sido secretário do Clube de Cinema do Paraná , localizado na Biblioteca Pública”; e muito se surpreenderam com Lélio Sotto Maior Júnior que, registro (eu, Mara Weinhardt) literalmente a fala do Prof. Appel., “teve a ousadia de revelar e defender os cineastas autores, sobretudo americanos (de filmes musicais, policiais e de westerns, então o seu cinema por excelência: para Lélio foi “John Ford quem implantou as bases do moderno cinema espetáculo americano, através de seus westerns e epopéias populares”) e franceses. Jean´Luc Godard era para Lélio o cineasta dos anos sessenta: “nem mesmo a modernidade de um Antonioni ou a genialidade tantas vezes confirmada de um Hitchcock ou o “avant-gardismo” radical de um Resnais lhe fizeram frente”. O expositor ainda explicou que “nos surpreendíamos com Lélio na medida em que nosso processo de politização,-- sobretudo dos mais velhos dentre nós --, então incipiente e em curso, se dava, cinematograficamente falando, mais pelo neo-realismo italiano”. Finalizou lembrando que textos do Bettega e do Lélio podem ser encontrados nos Cadernos do MIS. O prof. ainda teve tempo de falar sobre a necessidade do cineclube montar sua filmoteca (“no mínimo de cem filmes, os cem melhores da história do cinema”) e sua biblioteca (“no mínimo de livros de autores indispensáveis”), de entrar em contato com a Cinemateca de Curitiba, com estudantes e professores de cinema, com o CNC/Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, para organizar oficinas de formação cineclubista. E, tomando como exemplo a proposta de oficina do CNC, listou os seguintes temas: história do cinema, história do cinema brasileiro, história do cineclubismo, linguagem cinematográfica, organização do cineclube (aspectos jurídicos, programação, debate, divulgação, arquivo, publicações e produção), cineclube e escola. Antes de encerrar, o Prof. Appel agradeceu pela atenção, cumprimentou a todos pela fundação do cineclube, em especial Sofia Mariano Müller que com sua intervenção proporcionou ao 13 de Junho o privilégio de começar lutando pela reabertura do cinema de sua cidade, e convocou todos para participar do esforço que um punhado de amigos do cinema vêm fazendo para reorganizar o cineclubismo paranaense. Em seguida, presenteada ao professor Emmanuel uma miniatura do Theatro São João da Lapa, símbolo máximo da cultura lapeana, foi dada a palavra a Márcio Assad para fazer a apresentação do filme Cafundó, de Paulo Betti e Clóvis Bueno, escolhido para inaugurar as atividades do Cineclube 13 de Junho. Márcio, além de considerações sobre a trajetória de João de Camargo, interpretado por Lázaro Ramos ( nasceu escravo em meados do século XIX na região de Sorocaba e morreu nos anos 1940 já com quase 90 anos após ter fundado a igreja do Bom Jesus da Água Vermelha, entrando assim em conflito com as autoridades católicas e a oligarquia dominante, ambas preocupadas com o avanço das religiões afro-espiritistas católicas), traçou a partir do tropeirismo um interessante paralelo histórico entre as cidades de Sorocaba e Lapa: João Camargo, além de tropeiro, quando liberto da escravidão serviu como soldado em defesa da república na revolução federalista, que também, como se sabe, diz respeito à heróica Lapa. Márcio ressaltou ainda as cenas filmadas na cidade, -- o filme é de 2005 – e a convivência do elenco com a comunidade, com destaque para o diretor e ator Paulo Betti. Devolvida a palavra ao presidente, Kallil Assad deu por encerrada esta assembléia de fundação, convidando todos a se acomodar e assistir Cafundó, “também uma área meio mística que de fato existiu e onde a mãe de João Camargo o levava para achar “a verdade”’. Dado e passado nesta cidade da Lapa, eu Mara Weinhardt, secretária, digitei e subscrevi, seguindo assinada pelo presidente e demais membros da diretoria, juntamente anexada lista de presentes.Lapa, 29 de janeiro de 2011.